Diante de tantos sofrimentos, o mundo dos profilers é encarado, antes de tudo, como algo difícil.

Após uma sequência de episódios que não condisseram com tudo o que os roteiristas de Criminal Minds já proporcionaram ao longo dos anos, Strange Fruit e The Caller, embora seus propósitos sejam bastante diferentes, podem ser caracterizados como excelentes episódios no contexto de uma série procedural, visto que ambos os casos conseguiram prender muito bem a atenção do telespectador sem recorrer a um senso de continuidade, excetuando parte de Strange Fruit, em que o chefe da unidade Cruz teve participação efetiva.

Fazendo uma simples analogia entre os dois episódios, pode-se seguramente afirmar que os dois são difíceis de serem assistidos, já que revelam questões bastante perplexas de maneiras densa e inquietante. Strange Fruit aborda com afinco os problemas derivados do preconceito racial nos Estados Unidos, trazendo diversas perspectivas sociais contemporâneas e históricas capazes de transmitir diálogos excessivamente tensos, que serão abordados posteriormente. The Caller, por sua vez, trata do sofrimento de pais com a perda de seus filhos, motivo pelo qual, inevitavelmente – assim como a maioria dos episódios que possuem essa temática central – causa enorme angústia e sentimento de falsa esperança.

Além disso, ambos trataram de casos antigos que, de certa forma, acabaram por urgir no presente de uma forma inesperada. Enquanto em Strange Fruit o segredo era para ser mantido de forma eterna, o Unsub de The Caller queria mostrar seu trabalho e os motivos pelos quais ele estava cometendo tais atrocidades. Apesar dessas similaridades, os episódios possuem suas particularidades e não devem ser analisados apenas como complementares entre si.

Strange Fruit já se caracteriza, desde o início, por ser bastante diferente do que estamos acostumados a ver em Criminal Minds. Como muito bem já dizia Lisa Unger, o universo não gosta de segredos, ele conspira para revelar a verdade e te levar a isso, um dos propósitos foi justamente questionar quem são as pessoas que estão ao nosso redor. A descoberta dos corpos nos jardins da família Johnson pretendia, antes de tudo, combater a ideia de que tais vizinhos eram perfeitos. Os segredos daquele quintal eram bastante macabros e o fato de, durante todo o episódio, existirem somente três suspeitos práticos – com os excessivos interrogatórios – foi o inovador.

Algo importante a se considerar foi a necessidade de todos os agentes para a resolução do caso. Diferentemente do que geralmente acontece – devido ao número de profilers, geralmente um ou dois ficam parcialmente deslocados – todas as personagens foram essenciais para o desenvolvimento das investigações. Seja nos interrogatórios, seja na casa dos suspeitos, até mesmo Cruz foi muito bem ao que se propôs, visto que finalmente deixou seu lado chefe para adentrar no universo dos agentes da BAU. Obviamente, houve certo destaque ao suposto envolvimento de Cruz e JJ nas cenas iniciais e a Rossi, mas não se pode deixar de ressaltar que absolutamente ninguém nulo dessa vez.

Mas por que Strange Fruit foi um episódio difícil de ser assistido? Por uma razão bem simples. Primeiramente, Tina, Charles e Lyle compunham uma família moradora do Sul dos Estados Unidos, região já assolada por centenas de questões raciais desde os tempos de colônia, já que era nessa área que habitavam os escravos. Hoje ainda existem certos conflitos entre os ideais nortistas e sulistas – que diferem muitos dos da Guerra de Secessão ou de antes de Martin Luther King, claro – mas eles ainda existem. E pautando-se nesses fatores, foi exacerbado o sentimento segregacionista por parte da família em diversas cenas. Tudo foi muito além do simples just because I’m black. O fato narrado por Rossi – o incidente com os seus companheiros negros diante do armário – por exemplo, foi simplesmente repugnante, porque tal história serviu somente para ascender um sentimento de revolta em Charles, que inevitavelmente se viu diante de uma confissão para o crime que havia cometido. Chocante em todos os sentidos, essa história ainda despertou ira em Derek Morgan.

As cenas, tão antagônicas entre si, foram marcadas por diálogos demasiadamente dolorosos, protagonizados por todos os membros da família. E nesse ponto, destaca-se um dos pontos mais bem acertados dessa temporada de Criminal Minds – a capacidade de se renovar com elementos que não podem ser considerados inovadores, mas inteligentes. O recurso de interrogar três suspeitos por quarenta minutos poderia facilmente soar monótono e cansativo, porém não foi isso que ocorreu. A cada descoberta executada por Blake e Reid na casa ou por Garcia nos computadores refletia uma nova abordagem a cada instante, que somada às características pessoais de Lyle e Charles, por exemplo, rendeu fantásticos diálogos, sem em nenhum momento parecer repetitivo.

No meio a tantas declarações polêmicas, gatilhos e revelações bombásticas, fomos apresentados a um desfecho não capaz de provocar um turbilhão de surpresas, mas consistente com a investigação proposta. Em alguns momentos, pareceu que de fato Lyle era o impulsivo e agressivo homem por trás daquelas mortes, sendo o envolvimento pessoal apenas um dos fatores que anunciavam isso. Mas com os achados, foi coerente que Charles fosse o grande criminoso. A falta de masculinidade e a sua infância despertaram nele uma vingança inconstante, visto que o intervalo entre os assassinatos foi enorme. E, no fim, tudo fez sentido para mais um ótimo episódio de Criminal Minds.

The Caller, por sua vez, possui linhas de raciocínios que diferem muitíssimo das apresentadas em Strange Fruit, mas isso não quer dizer que o décimo episódio dessa nona temporada tenha sido ruim. Muito pelo contrário. Já lembrando um dos maiores sucessos do cinema – O Chamado – o caso revelou, como Aristóteles já dizia, que o medo é a dor decorrente em antecipação ao mal. O fato de vozes, por meio de uma chamada telefônica, anunciarem que alguém pegaria algo importante seguido de gritos e de uma simples mensagem de confirmação trouxe uma perspectiva bem sombria para um episódio que pretendia, sobretudo, cumprir essa função.

Não há dúvidas de que ver o sofrimento dos pais após o desaparecimento de um filho causa um dos piores sentimentos nos fãs de Criminal Minds – aquela dor profunda na alma que, mesmo sem ao menos compreendermos a gravidade da situação da forma que ela é, já gera por si só vivências nada agradáveis. E em The Caller tivemos novamente essa sensação de perda de crianças que tinham apenas a infelicidade de se adequarem aos padrões do Unsub. Apesar de superprotetores e controladores, os pais realmente amavam seus filhos e nunca imaginariam que o fato de a mãe ser estrangeira causaria tantas desilusões.

Extremamente bem conduzida, a investigação foi interessantíssima em todos os seus pontos, visto que, para chegar a uma conclusão definitiva da vida do Unsub e do porquê de ele estar fazendo tudo aquilo, foi precisa muita cautela e comprometimento. Ver que o alvo era simplesmente os pais devido ao trauma na infância foi angustiante por revelar uma ira até certo ponto inexplicável diante de tantos fatores. No decorrer da narrativa, descobriu-se que toda a empatia com os garotos atendia ao nome do professor de informática e, novamente, Criminal Minds não optou por um desfecho brilhante, mas um que fosse capaz de sintetizar a sucessão de acontecimentos, proporcionando um final coerente e bem trabalhado. Os recursos, mais uma vez, foram bem utilizados, contribuindo para uma atmosfera bastante importante. A gravação e a retomada de um caso antigo, por exemplo, fizeram com que a investigação de desenvolvesse a passos lentos, mas sempre em movimentos emblemáticos e rígidos.

Diante de tantos fatores, às vezes me pergunto… Quão difícil deve ser viver nesse mundo dos profilers? Enfrentar tantos sofrimentos dia após dia pode ser, em certos casos, algo que afaste o ser humano desse ambiente sombrio. Mas, como Emily Prentiss uma vez disse lá no 5×16 – Mosley Lane, eles fazem isso devido a dias de vitórias, que revelam que estarem cercados pela escuridão é apenas uma das etapas de um longo caminho. Afinal, Einstein disse que não devemos desanimar da humanidade, uma vez que nós mesmos somos seres humanos.

Dois excelentes episódios para celebrar uma temporada não totalmente constante, mas ótima em certos aspectos. Na próxima review farei um balanço mais detalhado dessa primeira metade da temporada, um pouco diferente dos anos anteriores. Sei que o décimo primeiro episódio já foi ao ar, mas infelizmente não tive tempo de vê-lo ainda. Peço desculpas por esse atraso imenso nas reviews e até o final dessa semana estará aqui no Série Maníacos a análise de Bully. Tenho muitas esperanças de que os atrasos não se repetirão daqui para frente e com certeza farei um enorme esforço para evitá-los. Desde já agradeço pela compreensão enorme de vocês.

Profiling… 

– Que espécie de missão estariam JJ e Cruz envolvidos? Teria alguma relação com uma suposta investigação do Pentágono na BAU? Lembro-me de que o retorno de Jennifer Jareau foi um pouco às pressas após a sua saída para a outra agência, visto que ela simplesmente avisou Rossi de que estaria voltando. Existiria alguma conspiração bem maior por trás de tudo isso?

– Blake e Reid formaram uma excelente dupla nesses dois episódios. Talvez pelo fato de ambos serem inteligentes e possuírem diversos pontos em comum, a parceria deles em Strange Fruit e The Caller foi brilhante.

– Além da música tocada no final de Strange Fruit, o título é muito coerente por uma infinidade de motivos. Primeiramente, naquele jardim, existiam frutos estranhos e inesperados – os corpos. Em segundo lugar, todo aquele contexto de sofrimento havia rendido estranhos frutos para aquela família.

– A Garcia estava totalmente correta. Corrigir um gênio é algo raro e deve ser absolutamente aproveitado.

– Acho que nem precisamos comentar o português nada agradável que vimos em The Caller. Simplesmente bizarro aquele sotaque.

– O tocar do telefone no final de The Caller é algo bastante sombrio. Como encarar algo que, no fim, causou os maiores sofrimentos possíveis para os pais? De fato eles estavam devastados, e prevejo um longo tempo até novamente atender ao telefone.

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