Quando surgiu, Better Call Saul trouxe consigo uma tarefa hercúlea: superar ou manter o nível de narrativa que quem acompanhou Breaking Bad estava esperando. O primeiro ano foi meio acanhado, ainda se contorcendo debaixo da imensa sombra que Walter White deixou para trás, tentando encontrar uma personalidade única, ainda que se baseasse num personagem tão rico dela.

Na sua segunda temporada, Better Call Saul levantou a sua bandeira e declarou a sua independência. Quem não se identificou com essa leva de episódios possivelmente não se identifica com o caminho que a série estava cimentando desde o piloto. Em Better Call Saul não há uma rota de progresso de personagem tão linear e evidente quanto em Breaking Bad. Enquanto Walter White vai de presa a predador, a transformação de Jimmy em Saul não é tão acentuada, pois Saul sempre existiu dentro dele.

Digo mais: a premissa do spin-off é muito mais difícil de se esculpir do que a de Breaking Bad. Enquanto na série-mãe ainda tínhamos espaço para grandes momentos de ação – alguns deles que quase arruinaram a série, como os horríveis gêmeos, que funcionam melhor aqui justamente por não aparecerem tanto –, a empolgação que Better Call Saul provoca é a de ver um advogado espertinho se tornar um advogado sem escrúpulos. Não é como se Saul fosse se envolver em tiroteios e se tornar o chefe de uma organização criminosa. Quem foi responsável por trazer ação para a série foi Mike e a sua transformação não está decepcionando.

Um dos maiores acertos desta segunda temporada em relação à primeira foi saber dosar bem os pontos-chave das evoluções dos seus personagens. E que personagens. Por ter uma proposta tão intimista, os pequenos momentos de construção de personagem são muito mais claros em Better Call Saul do que alguma vez foram em Breaking Bad. Compreendíamos que Walter estava mudando por olhar para a sua história a partir dum ponto de vista amplo, mas em Better Call Saul é quando se olha para os detalhes que se vê a coisa andando.

A jornada de Kim ao longo do ano, por exemplo, foi fantástica. É extremamente complicado desenvolver um personagem que se oponha a um protagonista e mantê-lo carismático. Muita gente detestava a Skyler, apesar da mulher ter estado certa o tempo todo. Mas como estávamos acompanhando a história pelos olhos de Walter e simpatizávamos com ele, a personagem automaticamente tornava-se antipática para muitos. O mesmo está acontecendo com Kim, mas pessoalmente, eu adoro a personagem.

Caso Chuck fosse o protagonista, certamente odiaríamos Jimmy. Se formos um pouco objetivos e deixarmos de lado as razões afetivas para gostarmos do futuro Saul Goodman, Chuck é quem tem razão em muitos dos conflitos. Ele não é apenas uma figura opositora unidimensional, por mais que muitos espectadores compreendam mal as suas intenções. A minha empatia não é equivalente a simpatia. Acredito que a temporada teria funcionado melhor se Chuck tivesse, de fato, morrido. Teria sido um pico de tensão que poderia ser o catalisador definitivo para o nascimento de Saul Goodman. Só de escrever sobre essa possibilidade eu já sinto arrepios, de tão poderosa que teria sido esse fim para Chuck (e Jimmy). Jimmy provocando a morte do próprio irmão para vencer mais uma vez e Chuck sendo morto pela sua persistência. Pena que a série não foi por aí.

A série se firmou como um programa de nicho mais do que eu esperava.  Better Call Saul deve fazer quem se acostumou com a reta final de Breaking Bad dormir (o início também foi lento, mas lá no final a série ficou tão frenética que o conquistou o povão). Gostei do ritmo da temporada anterior e adorei o desta. É tudo tão intimista e isolado que quando há um grande evento, ele tem mais força ainda. Estou me apaixonando por Jimmy de uma forma que nunca me senti sobre Walter. Heisenberg era um fantástico personagem, mas além de fantástico, Jimmy também é adorável. Estive revendo alguns episódios de Breaking Bad recentemente e tive uma sensação surreal quando vi Walter e Saul interagindo, como se eu conhecesse o segundo há mais tempo.

Foi uma ótima temporada sobre o “nada”. Uma evolução tão natural e paciente que me lembrou que nem sempre o progresso de um personagem precisa ser barulhento para ter o seu brilho. Me surpreendeu bastante, porque eu não esperava que a série abandonasse tantos chamarizes de Breaking Bad. Ousou e não me desiludiu em momento algum. Gus deve aparecer na próxima temporada – as iniciais dos títulos dos episódios deste ano formam a frase ‘Frings Back’, como já decifraram online – e o confronto entre Jimmy e Chuck deve ficar pesado. Ainda me sinto desconfortável com a ideia de esperar tanto tempo para voltar a ver as peripécias de Jimmy McGill.

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