“A única forma de não lutar mais é morrer”
Todos nós sabemos que o continente africano é palco de uma série de conflitos – consequência da intervenção colonialista no fim do século XIX e início do século XX. Tal processo interferiu diretamente nas condições políticas, econômicas e sociais da população africana. Seria preciso um bom livro de história para saber sobre cada conflito que tal continente possui, mas não precisamos assistir muitos telejornais para saber que muitos desses conflitos estão longe, muito longe, de um processo de pacificação. Se em Ruanda, Mali, Senegal, Burundi, Libéria, Congo e Somália a maioria dos conflitos são motivados por diferenças étnicas, em países como Serra Leoa, Somália e Etiópia os conflitos são motivados por disputas territoriais. Não menos importante, temos os conflitos por questões religiosas, que é o caso de países como Argélia e Sudão.
Não foi preciso muito esforço para sentir o que de fato Cary Fukunaga queria nos mostrar em Beasts of No Nation, adaptação de um romance de 2005 com o mesmo nome, escrito por Uzodinma Iweala – que escreveu a primeira versão em forma de conto, quando estava no colégio. Em entrevista para um site americano, Iweala disse que o que o motivou foi um artigo do Washington Post sobre os conflitos de Serra Leoa. Jornais como The Guardian compararam o medo, a degradação e a disfunção abusiva do filme ao pesadelo violento e desorientador de Apocalypse Now (1979), dirigido por Francis Ford Coppola e escrito por John Milius – filme cujo nunca assisti.
A infância roubada das crianças africanas talvez seja a semelhança mais gritante que existe entre os conflitos esparramados pelo continente. É a realidade que todos nós conhecemos, e que todos nós ignoramos – afinal, o que podemos fazer em relação a tal hipocrisia? Mas Beasts of No Nation, o filme, não é algo que assistimos por assistir. Nada do gênero se assiste por assistir. O primeiro longa-metragem original da Netflix tem de ser degustado, apreciado e sentido, mesmo que isso nos faça sentir cada vez mais nojo de nós mesmos, ou melhor, do Homem.
Os minutos iniciais entrega muita bem a personalidade de Agu, interpretado pelo iniciante Abraham Attah. Chega a ser estranho o humor discreto apresentando logo no início, tanto na atuação teatral de seus amigos quanto o jantar em família com direito a arrotos e puns. A tentativa de vender uma televisão sem tela demonstrou muito bem o instinto criativo de Agu e seus amigos. E as cenas muito bem descritas e apresentadas são frutos do que talvez seja a única coisa que a guerra não pode tirar de uma criança: a imaginação.
As gravações de Beasts of No Nation foram feitas nas selvas de Gana, durante a estação das monções, onde os recursos eram escassos e as enchentes causaram alguns estragos nos sets. As filmagens duraram cerca de cinco semanas, e nesse tempo os membros da equipe técnica foram detidos por homens armados, outros foram presos, o diretor pegou malária e a estrela do elenco caiu de um penhasco – dói a alma quando ouço falar que produções como essa são taxadas de ficção.
Apesar das gravações terem sido feitas em Gana, em momento algum sabemos em qual país se passa a história. Sabemos apenas que Agu e sua família estão no meio de mais um caos no continente africano, onde rebeldes militares assumiram o controle do país após a queda do governo. Se os minutos iniciais foram divertidos, os minutos restantes foram torturantes.
O momento mais triste e lamentável acontece ainda antes dos vinte e três minutos de filme, quando a família do garoto é fuzilada – menos a mãe e seu bebê, que conseguem escapar antes. Não sei se o motivo das execuções tenha tido influência direta da ‘bruxa’ que Agu cita no jantar. Mas mesmo se tivesse, não apagaria a crueldade que os rebeldes fizeram. Confesso que dói profundamente saber que cenas como essas estão no dia a dia dos africanos, ou pelo menos em sua maioria.
Brutalidades à parte, a sequência de acontecimentos a partir de sua fuga não deixa Agu sequer lamentar as tragédias. Talvez seus olhos ainda estivessem vidrados no corpo do irmão, morto com alguns tiros nas costas. Sem um período especificado de tempo, o garoto de nove anos é encontrado por uma facção rebelde em ascensão no país, a FDN.
O processo de iniciação que Agu passa antes de se tornar membro da facção foi realmente algo duro de se assistir. Sua infância não foi apenas roubada, mas aniquilada. O garoto naquele momento havia se tornado algo que ninguém jamais desejaria ser, e ele sabia disso. Agu tinha consciência de seus atos em certos momentos, mas sabia que, a única forma de não lutar mais era morrer.
Avançando um pouco os acontecimentos, Agu viria a ser testado mais uma vez com a queda de sua facção. Nessa parte da história o garoto mostrou sua coragem ao confrontar seu comandante. Pela primeira vez, Agu se impôs. Depois de ter sua família morta, depois de ter sua infância aniquilada, depois de ser estuprado, depois de ver mais seu amigo Strika morrer e depois de fazer coisas que jamais pensaria em fazer, o garoto se impôs. Felizmente ele encontrou uma forma de não lutar mais sem que corresse o risco morrer. O que deixa claro que a esperança é uma das coisas que nunca morre dentro de uma criança.
Se por um lado Abraham Attah teve uma atuação digna de premiação, por outro Idris Elba pode ser taxado como um magnetismo industrial – termo usado pelo jornal The Telegraph, do Reino Unido. A atuação de Elba também foi excepcional, mas a personalidade imposta para seu papel deixou um pouco a desejar.
Talvez o maior charme do longa-metragem seja mesmo o fato de Agu narrar a própria história. Uma narração por muitas vezes potente e pensativa. Um grande exemplo é quando ele mata pela primeira vez e diz que o cheiro da morte era doce como cana-de-açúcar. Mas apesar de sua ‘desumanização’, o tipo de visão que ele impõe de si mesmo quando é questionado por uma professora bem-intencionada foi algo primordial para o filme. Suas palavras nos minutos finais fizeram valer a pena tudo o que foi visto no decorrer da história, e mostraram, de uma vez por todas, que esses pequenos ‘animais’ são frutos de um continente deixado de lado.
Considerações finais
Indicado em três categorias no 72º Festival Internacional de Veneza – onde ganhou o prêmio Marcello Mastroianni –, Beasts of No Nation estreou mundialmente nessa última sexta-feira, 16, pela Netflix, por alguns cinemas selecionados pelo Reino Unido e também pelo Toronto International Film Festival. Muito está sendo falado sobre as atuações de Elba e Attah, as quais realmente merecem alguma premiação, porém é de se esperar que isso não aconteça. Mas seja qual for a desculpa que inventarem, a produção é magnífica e merece o respeito de todos, inclusive de Hollywood.















