Em clima de final de ano, a equipe do Série Maníacos se reuniu para eleger as 10 melhores séries de 2014. A lista leva em conta todas as produções exibidas durante os últimos 11 meses e meio, independente de estar na televisão há anos ou de ter acabado de estrear. Confira.
10. Orange is The New Black (Netflix) – Por Guto Cristino

Depois do sucesso absoluto de sua primeira temporada, Orange Is The New Black retornou para o seu segundo ano com um grande nome a zelar. E, ainda assim, conseguiu superar todas as expectativas.
Se antes estávamos conhecendo o território por meio dos olhos da nossa querida Piper, com a qual era impossível não se identificar, a verdade é que agora a prisão de Litchfield já nos fazia nos sentirmos em casa. E foi apostando nessa familiaridade que a série desvinculou nossos olhos do ponto de vista da protagonista e deu vida própria e independente a boa parte do elenco, usando como artifício a chegada de Vee, a Veebora, uma excelente e muito bem caracterizada vilã que só agregou à série.
Se antes personagens como Taystee, Watson, Pennsatucky e Crazy Eyes ganharam seu lugar ao sol, aqui elas foram sabiamente realocadas para que outras detentas pudessem chamar nossa atenção. Red, Morello, Rosa e Gloria foram algumas das que ganharam novas camadas, mas merece destaque o trabalho primoroso com Poussey, alçada de coadjuvante sem importância para o posto de uma das mais belas personagens que já tivemos o prazer de acompanhar.
A segunda temporada pode ter nos distanciado um pouco de Piper, mas fez isso apenas para nos provar que temos todo um ambiente e elenco com brilho próprio. Com o equilíbrio perfeito entre humor e drama (“Corram, freiras, corram!!!”) e sem medo de trabalhar com significativas reviravoltas, Orange Is The New Black segue extremamente bem sucedida em sua tarefa de nos fazer lutar muito contra o ímpeto de nos rendermos ao binge watching para matar toda a temporada no mesmo dia. E, mais uma vez, encerra nos deixando loucos para mais um ano se passar logo para mais uma overdose desse insaciável vício, ao qual quem não se entregou ainda não faz ideia da delícia que está perdendo.
9. Fargo (FX) – Por Pedro Henrique

Engana-se quem pensa que uma obra dos irmãos Coen é inadaptável. A versão de Fargo para a TV pede emprestado o universo do filme de 1996, e usa-o de base para uma das melhores séries do ano. Mas não espere uma cópia estendida do longa-metragem, a série foi capaz de igualmente criar uma boa história (semi)original, bons arcos e ótimos personagens. Fargo é uma mistura de emoções: cômica, dramática, sutil e exagerada. Tudo em seu tempo, sem soar fora do tom. Conta ainda com personagens multidimensionais e atores que conseguem criar dinâmicas interessantes e interações muito orgânicas entre os personagens. Fargo é grandiosa também pelo cuidado da direção e produção, e conta com locações lindas que fogem dos grandes centros urbanos dos Estados Unidos. Fazer graça com o americano interiorano, assassinatos dos mais diversos, planos mirabolantes e uma urgência constante trazida subitamente para uma cidade pacata e fria são coisas que fazem de Fargo uma série sedutora e viciante. Cuidado.
8. Shameless (Showtime) – Por Henrique Haddefinir

Shameless é daquelas séries boas que pouca gente vê, que tem indicações modestas nas premiações e que acabam em posições questionáveis em rankings como esse, hehehe. Basta dizer que a vida da família Gallagher merecia muito mais destaque em qualquer frente, sobretudo porque a quarta temporada elevou a qualidade dessa dramédia a um nível impressionante, onde até mesmo as voltas na mesma direção encontram seu sentido filosófico.
Em essência, a série é sobre legado. Os filhos de Frank vivem uma existência de pressões e privações, tem completa consciência de todos os erros que foram cometidos desde que aquela família se formou, mas continuam reproduzindo derrotas e fracassos como se fosse impossível renunciar às mesmas escolhas. Essa premissa ganha muita força no quarto ano, quando Fiona começa a ultrapassar todos os limites que a separam de repetir os erros do pai. Frank é uma espécie de totem de hipocrisia alheia. Ele é a escória de uma família que volta e meia prova do que o laço familiar é capaz.
O quarto ano foi um dos mais dramáticos… Levou Fiona pra cadeia, anunciou a bipolaridade de Ian, questionou as possibilidades de sucesso de Lip e quase matou Frank. No Season Finale nós ficamos com aquela impressão de que a segunda chance para o patriarca Gallagher e a volta de Jimmy/Steve representam menos avanço e mais retorno cíclico. O maior desafio para a quinta temporada é tentar fazer com que a série e os personagens quebrem seus padrões de expectativas. Estivemos diante de grandes apogeus… Pudemos perceber que os roteiristas nos levaram até os limítrofes para que os personagens ponderem, de uma vez por todas, até onde continuarão a honrar o pior do pai, enquanto o culpam por não serem capazes de seguir caminhos diferentes.
Mas, é claro que estamos falando dos Gallaghers e Shameless nunca vai sair limpa de nenhuma reabilitação. Não é isso que nós queremos e nem é o que eles são capazes de fazer.
7. Game of Thrones (HBO) – Por Lucas Müller

Bem, não é nenhuma surpresa ver Game of Thrones e sua quarta temporada figurarem nas listas de melhores nesse ano de 2014. Tivemos 10 episódios baseados, em sua maior parte, na segunda metade do livro “A Tormenta das Espadas” e nessas singelas páginas, George R. R. Martin não consegue controlar o sadismo por brincar com o destino de queridos personagens.
Foram 8 (!) grandes mortes (quase uma por episódio), e a adaptação dos showrunners da HBO não amenizou o impacto de nenhuma delas. O Casamento Roxo que, diferentemente da cerimônia do ano passado, terminou com aplausos e vibrações, a incrível batalha na Muralha, que trouxe um clima cinematográfico à série, e a inserção do príncipe Oberyn à história, que foi abruptamente arrancado do enredo antes do fim da temporada, são eventos que ficaram marcados na memória de todos que amam e acompanham cada passo da luta pelo controle de Westeros. Já minha cena favorita seria uma que sequer existe nos livros: a luta brutal entre Brienne e o Cão de Caça, que impressionou a todos os maculados e imaculados expectadores e mostrou que David Benioff and D. B. Weiss podem surpreender bastante com o material além-livros que ainda está por vir.
Analisando agora tudo que foi mostrado neste ano, vemos que vários arcos chegaram aos seus clímax. Personagens que eram engrenagens vitais dos acontecimentos nos Sete Reinos se despediram do enredo (Tywin, Joffrey) e outros, como Tyrion, Arya, Bran e Sansa, se dirigem a caminhos completamente imprevisíveis e distante de tudo pelo qual já passaram. Foi uma temporada de explosões, implosões e direcionamentos inesperados, e que a próxima faça o melhor para aproveitar o legado deixado por essa.
6. Hannibal (NBC) – Por Fernanda Santana

Cá estamos nós de novo, nos despedindo de mais um ano. Melhor ainda é aproveitarmos essa despedida para coroar, de forma justa, Hannibal como uma das melhores séries de 2014. Esse título se faz correto por diversos motivos. Mas, talvez o principal seja: Hannibal é uma série corajosa. Basta lembrarmos que sua casa é a NBC. Quando imaginávamos ver uma série tão “perturbada” e sangrenta em uma emissora como a NBC? Quando imaginávamos ver uma cena de automutilação tão vívida, quanto a de Mason Verger, na NBC? Mas o que impressiona mesmo em Hannibal, e até justifica a emissora sair da sua zona de conforto, é a qualidade e a beleza de cenas outrora consideradas grotescas e gráficas demais para uma emissora aberta estadunidense. Essa beleza, inclusive, confunde nós, audiência. Afinal, como é possível achar automutilação, canibalismo e tanto sangue tão viciante, tão bonito, tão surpreendente e até mesmo tão poético? Isso é Hannibal, que além de tudo é uma série totalmente sensorial.
Vale lembrar também, que nada disso seria possível sem o brilhante comando de Bryan Fuller, que sabe muito bem onde quer levar a história e não tem medo de levá-la, provando que a obra de Thomas Harris é inspiração pura. Essa segunda temporada ao mesmo tempo aprofundou a mitolgia criada por Thomas e também nos mostrou que ainda há imensas possibilidades. Tudo sem ser pedante ou chato. Mas, claro, que nada adiantaria um roteiro bom e uma equipe criativa boa, sem bons atores para dar vida à tudo isso. Se em premiações vemos a dança com cores entre Mads Mikkelsen e Hugh Dancy ser ignorada, aqui no Série Maníacos não. Vale dizer que os dois tiveram que suar, ainda mais, a camisa para darem conta de acompanhar “convidados especiais” tão especiais, oi Michael Pitt! Fato é que em 2014 Hannibal mostrou que não é preciso ser HBO, FX, AMC e afins para fazer televisão corajosa e de qualidade. Falta muito para a terceira temporada?
5. True Detective (HBO) – Por Gabriel Oliveira

Não é difícil prever que True Detective estaria por aqui. A criação de Nic Pizzolatto teve uma das temporadas melhor desenvolvidas do ano, por diversos motivos. A começar pela atuação brilhante de Woody Harrelson e Matthew McConaughey (é triste terem ficado sem um Emmy, mas na presença de Bryan Cranston seria difícil), que compõe uma dupla de personagens completamente distintos de forma brilhante, transmitindo ao espectador sentimentos incríveis ao longo dos oito episódios. Além disso, o próprio Pizzolatto faz um trabalho excepcional ao criar uma trama densa, que torna True Detective muito além de uma simples série policial, e sim um belíssimo estudo de personagens.
Por fim, não podemos esquecer do sublime trabalho de direção de Cary Fukunaga (este sim, merecidamente, premiado com um Emmy), capaz de conduzir diálogos com uma organicidade ímpar, contribuindo demais para que o elenco se saia tão bem. E como podemos nos esquecer do plano-sequência que acontece em Who Goes There, quando Fukunaga mantém a câmera sem cortes por seis minutos, envolvendo o espectador na situação que ocorre ali de maneira formidável.
Todo esse trabalho é tão bem conduzido que chega a ser uma pena que True Detective não conte com McConaughey e Harrelson para sua segunda temporada (é difícil que atores de menos talento como Colin Farrell e Vince Vaughn repitam o mesmo trabalho). Mesmo assim, é essa natureza desruptiva da série que a torna presença obrigatória em qualquer lista de melhores do ano.
4. Transparent (Amazon) – Por Aaron Engel

Depois de um silencioso primeiro ano, a segunda leva de pilotos da Amazon trouxe para nós um tesouro de valor incalculável. Transparent fala sim sobre um pai de família que depois de muitos anos escondendo o jogo finalmente se revela como um transsexual, mas o escopo do ambicioso seriado de Jill Solloway é muito maior. Analisando o relacionamento de uma família extremamente disfuncional e utilizando flashbacks para desenvolver a narrativa com uma genialidade comparável à de Lost, Transparent é tocante, pungente e no meio de tudo isso estupendamente hilária. Tragédias familiares se intercalam com comédia lasciva em um ritmo estonteante, e nossos sentimentos são manipulados ao longo de todos os curtos dez episódios de forma magistral. E, mais importante ainda, a série possui momentos memoráveis: a performance de “Somebody That I Used To Know” não será facilmente esquecida, tampouco o episódio flashback “Best New Girl” com uma fantasmagórica e intrigante cena intercalando passado e futuro. Transparent é o primeiro e importante passo para a Amazon se tornar uma relevante produtora de conteúdos originais, e até agora tudo foi emocionantemente perfeito.
3. Sons of Anarchy (FX) – Por Camila Barbieri

Defender a posição de Sons Of Anarchy nesse top é uma das tarefas mais fáceis que já recebi. Em sua sétima temporada, a série se despede de vez de seu público fiel de maneira exemplar, com roteiro marcante e coerente, como raras produções são capazes de fazer atualmente. A temporada foi uma constante de qualidade, com episódios bem balanceados e de trilha sonora escolhida a dedo para emocionar e causar impacto nos momentos mais oportunos. Impossível esquecer de perseguições com carros e motos em alta velocidade ao som de jazz clássico e das famosas sequências em que os diálogos são dispensados para que a música nos diga tudo o que não poderia ser dito de outra maneira.
Sem dúvida, Kurt Sutter conseguiu o que queria quando iniciou essa saga em tons shakespearianos há sete anos, no FX. Com Sons Of Anarchy, ele provou que é possível imaginar uma história de longo prazo e desenvolvê-la com calma e cuidado, sem jamais sair do trilho. SOA, afinal, se consagra não apenas dentre as séries com melhores temporadas de 2014. Sua Series Finale e seus 12 episódios anteriores posicionam a produção como uma das melhores já criadas para a TV. Do começo ao fim, roteiro afiado e elenco cheio de talentos fazem dessa uma trama impecável e imperdível, essencial para a watchlist de qualquer série maniaco.
2. House of Cards (Netflix) – Por Cléverton Bezerra

Há um misto de objetividade, sutileza, dissuasão e ambição banhado em elegância que permeia House of Cards, no entanto sua segunda temporada decidiu fugir à regra e acrescentou um novo elemento à receita com que nos acostumamos: o desconforto. Prova disso é a agilidade com que o roteiro jogou na cara do público a morte de Zoe Barns, a ascensão de Raymond Tusk, o passeio pela Deep Web, uma ameaça terrorista e uma manobra política agressiva travestida de entrevista em cadeia nacional ainda nos cinco primeiros capítulos. Tudo que acreditávamos e conhecíamos sobre o universo de House of Cards sofreu um abalo pesado ao longo dos treze capítulos do segundo ano.
Mas não bastava somente se desafiar, tinha que alçar mais alto e se alastrar o máximo possível e foi assim que fomos apresentados não somente aos bastidores nacionais da política estadunidense, mas também sua relação com a economia, com a sociedade e o cenário mundial. E diante disso não tem como negar que Beau Willimon foi o grande nome da temporada. O criador e roteirista não somente conseguiu trazer coerência para House of Cards, mas, principalmente, desafiá-la, sem ter medo de tirá-la do muro perante um terreno extremamente delicado, complexo e perigoso em que a série adentrou. E assim fomos presenteados com grandes momentos como Claire expondo seu estupro em cadeia nacional, a morte chocante de Zoe Barns, o ménage à trois de Frank Underwood, sua disputa vulcânica com Raymond Tusk e, principalmente, os cinco minutos finais da Season Finale, quando vemos a caminhada de FU, já presidente, em direção à sua sala para então encerrar a temporada dando dois toques autoritários na mesa. House of Cards conseguiu o improvável: entregar uma temporada com um nível acima de seu já excelente primeiro ano e por isso está, com louvor, entre as melhores séries de 2014.
1. The Good Wife (CBS) – Por Thiago Leal

Como defender algo que já se defende por seus próprios méritos?
Falar de The Good Wife em uma lista de melhores séries é ainda mais difícil do que defender aquela série que amamos, mas que no íntimo, sabemos que é bem ruinzinha. E falo isso porque The Good Wife é uma série que se defende sozinha, a cada semana, com seus episódios sempre bem escritos, dirigidos e atuados. Minha única decepção com The Good Wife, provavelmente, é com o fato de os King não serem venerados na TV americana, assim como eu os venero semanalmente… Afinal, em uma época em que a criatividade deu lugar à indústria caça-níqueis na TV e no Cinema, onde não existe mais a preocupação em fazer algo de qualidade, mas tão somente em fazer um projeto rentável (o que abriu as portas para os inúmeros spin-offs, remakes e adaptações que vemos atualmente), nos aparece os King apresentando uma trama que se preocupa tão apenas em sua qualidade, na ironia fina que guia seus personagens, na construção de uma trama tão segura de si que em nenhum momento perde o fôlego e transparece fragilidade… E olha que eles já fazem isso HÁ SEIS ANOS.
É uma série que simplesmente não sente o tempo, que nos traz uma qualidade assustadora no auge de seu sexto ano, que muitas séries estreantes não conseguem manter em sua temporada inaugural… Afinal, quantas séries podem se gabar de em quase 120 episódios, ter apresentado em menos de uma dúzia deles tramas abaixo de sua própria qualidade (isso porque, até um episódio mediano de The Good Wife ainda é uma das melhores horas produzidas na TV). Isso quer dizer que, em seis anos, lutando contra audiência e tendo a árdua tarefa de manter-se viva na selva que é a TV aberta americana, The Good Wife só não conseguiu ser magistral em menos de 10% de sua trajetória…
The Good Wife é a representação perfeita de sua protagonista, Alicia Florrick: num invólucro que pode transparecer fragilidade e simplicidade existe uma força imensurável, algo que as torna grandiosas.
No final das contas, ser escolhida a melhor série do ano é até pouco para The Good Wife, que trouxe de volta a inteligência para a TV. The Good Wife, para mim, não é apenas a melhor série do ano de 2014, mas sim um dos shows mais emblemáticos de toda esta década… Um show que se reinventou em seu quinto ano, manteve o alto nível neste sexto e que em nenhum momento, desde o seu piloto, deixou de ser brilhante.
Parabéns à The Good Wife, parabéns à boa televisão!
Menção Honrosa: Mad Men (AMC) – Por Thais Cardoso

É inegável que Mad Men foi um marco, a série continua no auge e garante assim sua citação no top de melhores séries do ano. Seu mérito é imensurável, a série poderia estar facilmente em primeiro lugar pela sua trajetória ou apenas pelos primeiros sete episódios de sua last season. Em episódios que mostraram a dinâmica perfeita entre os personagens, Sally e Don interagiram com maestria em um dos melhores episódios da série, o drama fluiu em Waterloo com a morte de Bert, Don lutou para readquirir o respeito e espaço em sua própria agência e sofreu perdas significativas; todo o enredo foi espetacular para o fechamento de uma grande série. Conduzindo todos os tipos de sentimentos em apenas uma cena, tendo um dos elencos mais bem preparados – se não o melhor das séries atuais – e com tramas impecáveis e emocionantes, Don Draper e a SC&P caminharam junto ao telespectador e concretizaram o melhor drama dos últimos tempos.
E para você? Quais foram as séries que se destacaram em 2014? Compartilhe conosco sua opinião.





















