Vício e renascimento em mais uma provocativa temporada de AHS.

Minha primeira vez hospedado num hotel eu lembro como se fosse hoje… Era uma sensação empolgante de independência e superioridade. Lembro que eu achava estranhamente libertador não me preocupar com arrumar a cama e que havia uma sensação intrigante ao pensar em todas as coisas que já não poderiam ter acontecido naquele mesmo quarto. Brigas, encontros, despedidas, sexo e quem sabe até, morte. Nos quartos de um hotel a única permanência possível é a da história. Esses são lugares fadados à representação do fim.

É claro que ao escolher o tema para defender a quinta temporada do show, Ryan Murphy estava pensando nessa história que fica. E pensando nas possibilidades mais sombrias dela. Não fui buscar nenhuma estatística, mas acredito que a passionalidade e o vício sejam grandes incidentes na mitologia fatal de um lugar como esse. Sobretudo nos hoteis decadentes, o vício, a melancolia e a traição são os hóspedes mais cativos. Por isso, faz todo sentido pra mim que o último episódio da temporada tenha sido aquele que mais falou do hotel.

Foram apenas 12 episódios. Não sabemos se por questões de produção ou se apenas honrando a tradição de pular o número 13 na disposição dos andares. O fato é que Be Our Guest teve um tom emocional, leve e lúdico. Algo muito próximo do que foi feito no finale da primeira temporada, mas com um pouco mais de seriedade. É correto, já que esse ano trouxeram de volta a mitologia espiritual vista no ano um. Resolvido o destino da Condessa, bastou colocar um olhar panorâmico sobre o hotel e se perguntar: se ela não tem mais controle, o que acontece com o lugar?

Liz e Iris querem e tentam recuperá-lo, mas ele está infestado de almas vingativas e os hóspedes continuam sendo assassinados. Então, numa dessas manobras deliciosamente loucas do roteiro, uma reunião é feita com os defuntos para pedir que eles sosseguem as facas. A cena foi maravilhosa, trouxe vários mortos vistos na temporada e resolveu-se com um detalhe ótimo e que faz todo sentido: por medo de não saberem o que há do “outro lado”, eles precisam permanecer no hotel e assim, ele não pode fechar. March exige o hiato nas mortes para que o prédio chegue aos 100 anos e seja tombado, o que impediria qualquer ação humana contra eles. Em que outro programa veríamos algo louco assim? 

No meio dessa cena, inclusive, tivemos um último vislumbre do Demônio do Vício e infelizmente os roteiristas não quiseram dar a ele uma abordagem específica. Não era nem uma questão de precisar ver tudo explicado, mas por achar que a figura poderia ter sido mais aproveitada. O demônio foi conjurado pela presença de Sally, que para evitar ser incomodada ou molestada por ele, lhe oferecia viciados para serem possuídos (no sentido sexual mesmo). Além disso, uma vez por ano ela levava vítimas para a Noite do Demônio, como parte de um acordo com March para que fosse protegida. Origens ou embasamentos não foram uma preocupação aqui, ainda que a criatura já esteja no hall das mais hediondas que o programa já apresentou. 

A razão pela qual Sally costurava pessoas no colchão também ficou velada e restrita à psiqué da personagem. Vimos que ela considerava o gesto de se costurar aos amantes uma forma de se atar para sempre a eles. Costurar pessoas no colchão era uma variante disso, sendo uma forma dela mesma não ser abandonada. Sally admitiu nesse episódio que essas torturas faziam-na sentir-se como se compartilhando uma dor e isso a fazia próxima dos outros. A solidão e melancolia de Sally sempre foram até mesmo cultivadas por ela, num sonho doido, artístico, de ser a vítima pelo resto da eternidade. A internet, então, usada como meio de suprimir essas solidões efetivas foi uma virada simples, inteligente e usual. Nas redes sociais, ela poderia compartilhar seu ódio universal e dor enfadonha, com milhares de “incompreendidos” ao redor do mundo. A internet tornou relevantes a dor e a tristeza alheias; e isso veste Sally na medida perfeita. 

Dito isso, preciso reafirmar que Sarah Paulson brilhou como nunca nessa temporada. Além de  provar sua capacidade impressionante de viver os tipos mais distintos, apareceu no mesmo episódio vivendo duas pessoas diferentes. AHS é tão incrível que galga degraus novos dentro da própria dinâmica. Não bastasse que os mesmos atores vivessem personagens diferentes a cada ano, eles começaram a viver personagens diferentes dentro do mesmo ano. Ver Billie Dean de volta foi deleitoso. As duas longas cenas que ela fez me grudaram na TV, com aquelas doses cavalares de mitologia e uma verdade absoluta: Sarah é a segunda deusa maior desse programa e mesmo que tenha sido morta logo na premiere (interrompendo o ciclo de sempre sobreviver nas tramas), seguiu incólume pela temporada como uma atriz que fortalece qualquer atmosfera onde seja inserida. Enfim, uma deusa… Foi estranho que o finale tivesse sido tão focado em coisas nas quais não tinha focado antes, mas já se vão cinco anos, já está na hora de admitir que essas abordagens não-lineares não são um acidente, são a identidade do show. Essa vanguarda é para poucos e é simplesmente maravilhosa. 

Liz também reinou como fio condutor dessa despedida. Denis O’Hare deu vida, sem dúvida, ao seu personagem mais icônico desde que entrou na família AHS. Liz encontrou dentro daquele lugar, os parceiros perfeitos de “renascimento”, capazes de compreender uma existência peculiar. Seus esforços em manter o hotel se equipararam aos seus esforços em espalhar consciência entre os personagens. Ela reinventou Iris, Will, viveu entre os mortos como uma cuidadora de “outra vida”. Foi realmente emocionante a sequência em que escolheu ser assassinada no prédio, para ficar com eles para sempre. Os olhares trocados, as admissões de amor, a trilha sonora… E sobretudo, ver a emoção trocada entre ela e a Condessa. De todas as coisas que Elizabeth criou, a melhor é a que não bebeu de seu sangue. 

Essa transição de Liz (aliás, a escolha certeira da palavra “transição” também me comoveu, já que a personagem recusava a cirurgia que lhe adequaria o gênero, mas acabou renascendo novamente) respondeu uma pergunta que atormentou alguns leitores desde a semana passada. Todos achavam estranho que Tristan não tivesse aparecido para Liz já que os contaminados pelo vírus também permaneciam no hotel quando mortos. Por saber da tradição de não ter todas as explicações, me apressei em teorizar que Tristan já teria tido uma prova de amor incondicional, sendo isso o necessário para que ele não tivesse assuntos inacabados. Isso já seria suficiente para mim. Porém, no espírito de combater as constantes (e injustas) acusações de falta de planejamento, Be Our Guest foi o episódio que nos disse: aprendam a esperar. Tristan teve um retorno muito bonito, para dizer a Liz que ela precisava viver e por isso ele se resignara. Lindo! 

Sei que o excesso de Liz ou de Billie Dean pode aborrecer alguns. Eu continuo achando que as escolhas do show são ousadas e surpreendentes, mas concordo que tivemos muito pouco de Condessa, sobretudo na semana em que Lady Gaga ganhou o Globo de Ouro numa zebra épica. Não vou tentar convencer ninguém do merecimento dela, vou apenas dizer que Lady Gaga é uma atriz em todos os aspectos técnicos. Ela tem domínio de inflexão (técnica para tornar natural o texto, descolado do papel), tem impulso, tem sensibilidade e tem presença. A Condessa é sim uma estética, uma alegoria, mas também é humana. Acredito que por ser um primeiro papel de peso, num universo dado a visceralidades, a escolha de seguir com uma atuação sutil foi correta, segura e louvável. A Condessa tem a superioridade dos personagens imortais, o olhar vago do desinteresse pela vida alheia e o descontrole da lembrança. Ela sempre quis ser mais que um ser humano ordinário… E conseguiu. Gaga sempre foi uma das artistas que mais admiro e agora, por conta dessa nova empreitada, eu a respeito ainda mais. Torço para que ela volte para o ano seis.

Por fim, o retorno de John nos ofereceu mais um pouco da Noite do Demônio, com o ótimo elenco que interpretou os clássicos assassinos e uma outra dose estranha de lúdico. Ainda que fosse um assassino, John teve um fim adocicado. Levou Billie Dean para a reunião no intuito de fazê-la parar de falar do hotel, afinal de contas a família dele também estava lá e lá ficaria para todo o sempre (inclusive, como não dizer que Sarah Paulson fez de novo uma mulher que se mete onde não devia pelo bem de uma boa matéria?). Vimos Scarlett grandinha indo visitar a mãe e o irmão vampiros; e o pai fantasma/serial-killer. E o mais incrível: ali há realmente um senso delicado de família. Volto a dizer, em nenhuma outra série seríamos capazes de ver uma dramaturgia tão insanamente competente na arte de transmutar o completo obscuro em algo passível de beleza. 

Eu dispensaria feliz a última cena com a Condessa arrumando um novo companion. Aquilo foi desnecessário e novelesco. Mas, me despeço de Hotel com uma sensação deliciosa de satisfação. Novamente, fui cutucado, provocado, inspirado e devastado. O mundo de American Horror Story tem uma complexidade única, regada de alegoria, estética e luxúria. Essa é uma série que não se conta nas métricas habituais, não é uma forma distinguível, não é uma arte de contornos delineados.  Ela não se faz em sistemas estabelecidos e por isso, pede para ser vista com olhos alucinados. Somente numa produção assim o conceito de renascimento se conduz pela ótica da morte, o impulso do vício não se restringe a químicas e a solidão pode ser um conforto existencial compartilhado.

Estou fazendo check out no Hotel Cortez, mas vou morrer de saudades e sempre vou querer voltar.

Check Out: “Me corte e eu sangrarei Dior”. Liz Taylor, eu amo você. 

Check Out 2: Até Iris teve seu momento de conclusão definitiva ao ouvir de Donovan um ectoplásmico “Eu te amo”. 

Check Out 3: A Thacher School citada algumas vezes no episódio realmente existe e me fez pensar em pistas para a sexta temporada. Porquê não tivemos anúncio sobre isso esse ano? 

Check Out 4: Mais uma vez, obrigado a todos por mais uma incrível temporada de comentários e troca de informações no twitter e no facebook. Eu estive aqui em todos os cinco anos do show e a cada novo ano só percebo a experiência sendo mais engrandecedora. Vocês são lindos e eu só tenho a agradecer. 

Até outubro, little monsters.

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