O dia em que um país inteiro validou uma das maiores mentiras da história da America.

Quero começar essa última review da temporada de American Crime Story de um jeito diferente. Esse projeto antológico derivado do sucesso de American Horror Story começou sob a atenção de um público cada vez mais incomodado com as liberdades limítrofes de seu criador. Ryan Murphy merece um texto inteiro sobre como dedica seu trabalho como roteirista a fazer alguma diferença na ordem social do mundo (um texto que ainda farei) e quando ACS foi aprovado, eu não duvidei de que embora estivéssemos diante de uma obra baseada numa história real, ele não deixaria de ampliar as questões para além de uma ótica criminal.

Essa foi uma temporada IMPECÁVEL. Não foi nem uma nem duas vezes que li e ouvi gente dizendo que abandonou o show por conta da direção afetada de Murphy. Não vou dizer que não haja validez em abandonar uma série por conta de uma direção, mas o que vimos acontecer em ACS foi uma decisão estética sendo colocada em prática. A realidade brutal dos eventos servia de contraste para uma direção dramática, over the top, exatamente apoiada na abordagem dos integrantes da defesa. Roteiro, atuações e montagem eram tão eficientes, que me pergunto se valeria mesmo a pena abandonar o show por conta de alguns closes e câmeras tremidas.

Reconhecer a qualidade técnica, a impressionante reconstrução de época e escalação quase perfeita dos atores, é fácil e justo. A recepção do público que continuou foi muito boa e uma olhada panorâmica no resultado final torna quase impossível estabelecer problemas notórios na fórmula. Murphy escolheu o tema porque toca em tudo que representa o trabalho dele: é um grande momento sociocultural dos EUA, resultou em ícones de cultura pop e poderia ser contornado de forma a abrir espaço para discussões muito importantes. Enfim, American Crime Story é um primor, isso é inegável. Agora, precisamos falar de como terminou essa história…

O episódio começou com os argumentos finais da defesa e da acusação. O vídeo acima mostra um pouco de como Marcia iniciou suas colocações e não só confirma que o texto da série respeitou o original, como também um pouco do maravilhoso trabalho de Sarah Paulson. Esse é um momento muito emblemático, porque ela mostrou uma reunião de evidências completamente irrefutáveis acerca do caso. É impressionante, são irrefutáveis mesmo. Cheguei a pensar que Murphy optaria por mostrar em flashback como teria sido o crime, mas entendo que isso acabaria com a ambiguidade do caso e não seria elegante como foi toda a dramaturgia do show. Mas, achei que talvez fosse bacana colar aqui um vídeo que mostra com uma animação, como OJ teria atacado as vítimas.

Depois de 40 segundos de vídeo, começa a descrição do crime, que eu vou traduzir livremente abaixo usando tópicos. A animação não é nada sensacional em termos de qualidade de imagem, mas dá pra ter uma noção boa de como a coisa toda teria acontecido.

• Ron Goldman chega à casa de Nicole para devolver o par de óculos esquecidos no restaurante onde ele trabalhava. Toca a campainha.

• Nicole vem atender porque pelo interfone já ficou sabendo quem era. Ela precisa vir e deixá-lo entrar para a pequena área nos degraus da entrada, já que para os peritos, o assassino veio de dentro da propriedade e não de fora.

• Toda a área na frente da casa era imensamente obscurecida pelas árvores e arbustos (onde OJ, segundo Faye Reznick, vivia se escondendo para vigiar a ex-mulher), então, o assassino precisou se revelar de maneira rápida, surpreendendo e desnorteando os dois ao mesmo tempo. Ele então, dá um soco no rosto de Ron (comprovado na autópsia) e acerta o cabo da faca em Nicole. Ela cai nos degraus e ele, no pequeno espaço entre a entrada e a cerca lateral.

• Depois de deixar Nicole quase desacordada, o assassino precisa lidar com a ameaça maior: o jovem e atlético Ron Goldman. O assassino então, apoia a faca na nuca de Ron e usa isso para erguê-lo do chão, com a mão tampando-lhe a boca. O ferimento causado já seria suficiente para matá-lo.

• Com a mão tapando a boca de Ron, o assassino ainda conversa com ele por alguns instantes, antes de lhe dar o outro golpe fatal, bem no coração. Mais uma vem na lateral do corpo, quando Ron tenta se virar e mais outras quando os dois ficam de frente. A ferida no assassino foi feita provavelmente nesse momento.

• O assassino então, empurra Ron contra a cerca com força, ele bate nela e cai aniquilado (havia arranhões nas costas que indicavam a pancada contra a cerca). Suas chaves voam para fora do bolso, o envelope com os óculos já estão caídos no chão… Seus olhos ficam abertos.

• Com Ron morto, ele pode dar atenção a Nicole e usa a mesma técnica para erguê-la do chão. A mão sobre a boca, provavelmente falando com ela enquanto isso. A perícia chegou a essa conclusão porque antes do corte fatal, três pequenos cortes foram feitos enquanto ele falava.

• O corte fatal é feito com a cabeça dela virada quase que completamente para trás e com uma força tremenda. Sua cabeça fica presa no pescoço por um fiapo de pele. É um único corte e ela cai.

• Na animação, o assassino leva a mão à cabeça e percebe que está sem a touca. Ele precisa tirar as luvas para senti-las na grama, mas especula-se que nesse momento algo tenha acontecido. Passos ou cães latindo podem ter assustado o assassino, que para fugir do flagrante, saiu correndo, deixando uma das luvas e a touca (touca essa que tinha muitos fios de cabelos afrodescendentes).

• No caminho da fuga, há gotas de sangue saídos da ferida do assassino por toda parte.

Considerando que OJ é o assassino mais que provável, chega a ser estarrecedor o quanto os jurados fecharam os olhos para tantas provas. Ao sair da cena do crime, ele deixou sangue, cabelos, sujou o próprio carro, sujou a própria casa… É evidente que na manhã seguinte, quando foi preso, ele tinha plena consciência de que não haveria defesa que lhe salvasse, por isso a fuga, a tentativa de suicídio… Qualquer um diante daquele mar de evidências acharia isso. O problema é que a fuga e a recente tensão racial em Los Angeles convergiram numa “evidência” maior: aquela cidade estava cansada de discriminação. Foi nesse ponto que ACS encontrou sua excelência. A mentira daquela inocência foi corroborada por um povo cansado de injustiças, e que acabou cometendo a maior delas.

No vídeo acima está a parte dos argumentos finais de Johnny, em que ele usa a famosa frase “If doesn’t fit, you must acquit” (se não cabe, absolva), numa alusão ao episódio das luvas. Toda a construção argumentativa do advogado é completamente teatralizada, centrada em pontos do julgamento que já tinham sido esclarecidos antes: as luvas não cabiam porque foram descongeladas e testadas milhões de vezes. Mas, já estava estabelecido que o importante não eram as evidências do crime, mas as evidências de racismo por parte do LAPD. É absurdo que as vítimas em certo ponto tenham sido esquecidas e o julgamento tenha virado O Povo Contra a Polícia de Los Angeles. Se não foi OJ, então quem foi? Nem a própria defesa dele podia correr atrás de outro suspeito para usar como plano B, porque simplesmente não havia como não ter sido ele.

O veredito foi resolvido em quatro horas… Os jurados negros, em essência, não acreditavam em culpa. Mas, o senso comum a que chegaram era sobre não provar culpa, esquecendo que provar inocência tampouco era possível. Havia uma lógica de “E se a polícia tivesse mesmo feito aquilo?”, mas era uma lógica que preferiu ser colocada em primeiro plano, ainda que as chances fossem invisíveis a olho nu. OJ foi absolvido por uma parte do júri que acreditava piamente em sua inocência e uma outra parte, temerosa de estar cometendo um erro ligado a outros erros históricos.

Esse vídeo acima foi o mesmo que eu colei na primeira review, e que mostra a reação da plateia de Oprah ao veredito. A parte negra da plateia em euforia… Os brancos, indignados. Esse caso é tão sensacional que existe nele uma ambiguidade única na forma como as pessoas o discutiam. Era muito complicado falar sobre ele usando, por exemplo, a expressão “dessa vez os brancos estão certos”, porque a questão era tão delicada, havia tantas latências e inflamações na forma como a comunidade negra era constantemente massacrada pelo racismo, que até dizer em voz alta que os brancos estavam do lado certo, já soava mal. OJ e sua defesa usaram feridas antigas para validar uma mentira, foram oportunistas com questões raciais sérias e acabaram enganando e se aproveitando de uma nação de afrodescendentes. Sim, porque quando ele foi preso por sequestro e roubo, quando publicou aquele livro hediondo contando como TERIA matado a mulher, ele jogou na cara de todas aquelas pessoas: eu enganei vocês.

No vídeo abaixo, alguém o flagrou com uma câmera enquanto ele ouvia, pela primeira vez, um rap sobre o crime. Ele ri, faz algumas piadas e abraça sua impunidade com ares de rei.

A partir do momento do veredito, o episódio final entra numa inevitável espiral de melancolia. Parecia impossível, mas aconteceu. Sarah Paulson, Sterling K. Brown e os atores da família Goldman foram incríveis na representação da frustração diante desse resultado. O mais incrível, porém, era ver esse mesmo semblante impresso em alguém do outro lado. Quando Kardashian e Marcia trocam um olhar no tribunal, eles compartilham, sem saber, do mesmo sentimento de indignação. David Schwimmer foi fantástico no seu silêncio culpado, na sua dor contida, na sua decepção assombrosa.

Na coletiva com a imprensa, Marcia fez um belo discurso sobre o quanto aquele veredito não deveria influenciar negativamente as vítimas de violência doméstica do país e teve uma saída de cena digna e austera. A confissão sobre o estupro sofrido diz muitíssimo sobre ela e fico ainda mais orgulhoso da verdadeira Marcia, por permitir que isso viesse à tona. Darden sofreu de verdade com as implicações do julgamento e a reação emocional dele ao fim de tudo pode ser vista lá no episódio e aqui no vídeo abaixo.

E então, quando parecia que esse roteiro brilhante não poderia nos oferecer mais nenhuma grande resposta emocional, ele responde a Darden depois do intenso diálogo entre ele e Johnny. Segundo Chris, Johnny tinha agido segundo a própria vaidade e não tinha mudado nada no sistema. Porém, a série não está interessada em vilanizar ninguém e já tinha se adiantado em nos mostrar com a visão de Johnny foi deturpada pelas próprias experiências com a polícia. O que acontece é que, de súbito, talvez até sem que ele jamais esperasse por isso, as coisas começaram sim a mudar. Nunca saberemos se aquelas lágrimas eram por ver-se como canal indireto de uma mudança social consistente ou se só eram lágrimas de orgulho de si mesmo. O fato é que Johnny foi grande, muito grande… E seu intérprete, o incrível Courtney B. Vance, um ator poderoso como pouco se vê na TV.

Dedicaram ao momento final do episódio, a epifania derradeira da vida do famoso OJ Simpson. Livre para voltar a Brentwood, ele descobre que Brentwood não o quer de volta. A entrada na elite branca que ele tanto ambicionou e que por fim, conquistou, tinha ficado para trás. Agora, não importava o quanto ele tivesse dinheiro, ele era “só mais um deles”, um negro assassino, um criminoso violento que jamais deveria ter adentrado um mundo que não era o seu. Percebem como as ambiguidades dessa trama são brilhantes? Ele enganou muita gente, mas na figura de um cansado Kardashian, está aquele que não foi enganado. A festa cheia de gente estranha é o contraponto com uma vida de silêncio e solidão, impressas perfeitamente na única sequência realmente boa de Cuba Gooding no papel. A casa cheia, rico, absolvido, adorado por muitos estranhos…Mas, ele não era mais o mito. Não havia mais ela… Nicole, fama… Ela… E não há mais brilho no sol quando ela vai embora.

Quero agradecer a todos vocês por esse tempo fantástico juntos. Ano que vem espero encontrá-los. Deixo registrado aqui – mesmo que eu seja um zé ninguém – todo o meu carinho às famílias das vítimas e em especial aos Goldmans. Quando eu chorei ao ver as fotos de Nicole e Ron no final do episódio, eu chorei por respeito e solidariedade a vocês. Ninguém devia precisar passar pela dor de perder um ente querido assim e de ainda ver o responsável por isso ser libertado com ares de Messias. Um carinho no coração de vocês, porque a dor que compartilham é a parte mais difícil dessa trama que não é ficção.
Últimas Notas De Um Crime:

• Johnny Cochran realmente sofreu ameaças de morte durante o julgamento e apareceu com seguranças no dia do veredito.

• Na verdade o júri levou até menos que quatro horas para decidir, mas resolveram fazer uma pausa para o almoço.

• O momento em que um dos jurados faz um sinal para OJ também aconteceu exatamente daquele jeito.

• O estupro sofrido por Marcia não foi na Italia e sim em Israel. Imagino que a troca de localidades tenha algo a ver com a fragilidade das relações entre Oriente Médio e os EUA.

• Há uma teoria muito idiota sobre o verdadeiro assassino ter sido o filho de OJ (aquele que lhe deu o cachorro) e parece que os produtores resolveram brincar com isso, já que uma única foto de Jason usando uma touca como a da cena do crime e ao lado de um cachorro, fica sendo usada como “evidência” pelos fãs da conspiração.

• OJ, acredite se quiser, quis jogar golf logo depois do veredito. O dono do clube lhe fechou as portas e indignado, OJ proferiu: Eu fui inocentado, me dê duas boas razões para que eu seja banido do clube. O dono da propriedade lhe respondeu: Cabelos e fibras.

• O “acredite se quiser” continua, com um detalhe que mencionei na primeira review e que preciso trazer de volta aqui. Pouco tempo depois do crime, OJ quis lançar um livro chamado If I did It (e seu tivesse feito), onde contava toda a sua história com Nicole e como TERIA cometido os crimes. O livro foi embargado, lógico, mas trechos dele podem ser encontrados na internet. Esse foi, sem dúvida, um dos maiores atos de escárnio e deboche da história da humanidade.

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