Experimentos falhos e a presença de alienígenas enriquece o episódio de Agents of S.H.I.E.L.D.

Falhar é o guia para qualquer super-herói existente na nona arte. Você falha hoje para se sair bem amanhã. Cair e levantar. Mas o que fazer quando a própria origem de sua espécie é considerada uma falha? É muito fácil traçar um paralelo dos inumanos com a própria história e trajetória histórica da humanidade. Uma raça que consome e destrói praticamente tudo o que toca, somos também considerados como um experimento falho. Utilizando esta liberdade poética, a série trouxe dois alienígenas para julgar toda uma raça. De uma maneira que denota a própria situação da produção atualmente.

Mais do que apenas a representação do experimento realizado por alienígenas, o nome do episódio faz uma menção a própria trajetória da série, um Failed Experiment.  Quando começou na televisão existiram muitas expectativas para o produto derivado dos grandes filmes da Marvel Estúdios. Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D. se transformou na primeira tentativa da casa para criar um seriado que deveria, em teoria, funcionar como uma base de propaganda para os filmes, enquanto também alçava voo com as próprias asas no arriscado panteão de produções televisivas dedicadas a um nicho especifico. A fórmula utilizada não agradou, a audiência sangrou hemorragicamente e mais uma vez voltamos a prancheta de tentativas. Como um grande projeto de ciências a série permanece até hoje moldado sua própria temática, tentando encontrar-se, mas sem nunca entregar algo definitivo.

Claro que o foco, além da experiência de recriação dos inumanos, mais um adendo para o complexo de deus que Hive possui, foi em Daisy e a expectativa de que o velho clichê do personagem controlado iria, de alguma maneira, demonstrar a redenção da ex-hacker. O mais importante neste momento é compreender novamente a função que Daisy tem dentro do time e o que ela representa especialmente para Coulson, May e Mack. Não é a primeira vez que existe um embate entre Daisy e May, também imagino que não será o último – se nenhuma das duas morrer, lógico. Porém o interessante é absorver a maneira familiar que cada um daqueles personagens se relaciona. Existem mágoas, mas também existe muita aceitação. A montagem da cena em que o Coulson procura pelo rosto da “filha” no sistema de segurança exemplifica muito bem como o emocional de todos está abalado e como é possível que cada um deles se disponha a se sacrificar pela agente caída.

Daisy nunca esteve inteira, é a premissa da personagem desde sua introdução na série, vivendo em uma van enquanto lutava contra o sistema opressor da S.H.I.E.L.D. e buscava informações de sua família. Esta é uma personagem que depende de conexão humana, assim como grande parte da população. A imagem de Mack como um irmão mais velho, de May como mãe e Coulson como pai é algo importante, mas também não é definitivo, não denota uma verdadeira conexão sanguínea e de compreensão. Quando Skye recebeu o soro alienígena e a infusão de névoa terrígena, passou a ser inumana, a ponte que antes a conectava a sua família adotiva encontrou um penhasco. Tanto que o comportamento da personagem durante o inicio do arco deste terceiro ano foi o de questionar e abraçar a raça inumana, designando aquele como um direito e passando a enxergar uma nova família para si. Hive oferece para ela algo que nem mesmo o time ofereceu, uma noção de pertencimento. E é exatamente neste relacionamento que mora o perigo.

A inclusão de alienígenas e criaturas visualmente “diferentes” começou com Raina, a mulher do vestido florido, na metade da segunda temporada. Com certeza é um tipo de diferencial que expande a mitologia da produção, impondo novas características que ajudam a diferenciar o produto final de qualquer outra criação similar. E é novamente deste ponto que surge a impressão de que Failed Experiments fala diretamente com a própria premissa da “filha mais velha” da Marvel Tv. O diferencial só começou a ser trabalhado a partir do segundo ano, com mais força após o hiato, em Aftershocks. Só que o clima, os cenários, a iluminação, permanece sem nenhum grande atrativo. Trabalhar a S.H.I.E.L.D. é complexo, pois ela nada mais é do que uma grande base de operações. É notável que a série fez o possível após o final de sua primeira temporada para impor algum tipo de mudança estilística, escolhendo uma base que mistura o ar tecnológico com o antigo.

Sem um Homem de Ferro, Thor e outros personagens com efeitos visuais que flertam diretamente com o imaginário do público, a série precisa criar algo que a torne única. É então que entram os inumanos. Entretanto ainda é possível perceber dentro do roteiro um tipo de preocupação limitadora. Dois alienígenas gigantescos aparecem, mas sem nenhuma conexão com algo maior, é apenas um detalhe. Um agrado passageiro que serve para cumprir um propósito, mas que ao mesmo tempo demonstra a grande camisa de força que são os filmes e o universo compartilhado. Limitar ambos os “invasores” a uma explicação fácil ilustra bem o grande muro existente entre cinema e televisão. Ambos funcionavam como sentinelas, flutuando na atmosfera terrestre, “dormindo”. Após a invasão chitauri é bem difícil acreditar que uma nave estaria na órbita terrestre por tanto tempo, imperceptível. Também é extremamente complicado conceber a ideia de que a mini-invasão não foi notada por ninguém, mas neste caso é melhor aguardar.

O décimo nono episódio da série serve para criar uma ponte entre o que a própria Agents of S.H.I.E.L.D. foi e o que ela está se tornando. Dentro da imagem de heróis, vilões e alienígenas, o sentimento de que cada inumano foi desenvolvido com e como uma falha, é compreensível e toca na própria motivação da alma humana. Queremos pertencer, fazer parte de algum grupo, equipe, ser reconhecido, é essencialmente o que nos move, mesmo que em níveis diferentes para cada individuo. Daisy expõe exatamente a falta que uma família a fez e como a devoção a Hive está moldando seu caráter. Falta pouco para compreendermos finalmente a extensão dos planos do melhor vilão que a série já teve, enquanto isso continuaremos acompanhando a transformação gradativa de um experimento falho, em um grande sucesso.

Easter eggs e outras informações

– Hive fez menção ao Homem de Ferro e Capitão América, além de ter usado a palavra ‘Civil War’.

– Antes de ser transformado Hive foi um maia. Será que foi por isso que os maias desapareceram?

– Em Secret Warriors existem algumas interações do time de Guerreiros Secretos em alguns bares e restaurantes. É interessante ver esse tipo de abordagem na série, pois dois membros do time que já mantiveram um relacionamento, Daisy Johnson e Hellfire, estão juntos trocando algumas ideias naquele pub abandonado, mas com cerveja gelada.

– Através de Failed Experiments tivemos uma noção maior quanto a experiência que os Kree realizaram em seres humanos milhares de anos atrás. E a pequena cena recontando a criação do Hive é uma alusão exata a mitologia da raça inumana nas revistas em quadrinhos.

– Durante o episódio dois novos agentes, aqueles que devem existir desde sempre, mas que só apareceram agora, estão conversando quando um deles chama o outro pelo sobrenome O’Brien. Existem alguns personagens que poderiam ser uma conexão. Michael e Kevin O’Brien.

– Kevin O’Brien é conhecido como o ‘Guardsman’. Inicialmente ele foi um engenheiro dentro das indústrias STARK, onde fez amizade com o próprio Tony. Após ajudar Tony e o Homem de Ferro, que na época era o “guarda-costas” do empresário, Kevin acabou ganhando uma armadura e passou a operar em momentos de emergência. Pouco tempo depois O’Brien começou a sentir inveja do amigo e terminou enfrentando o Homem de Ferro. Sua primeira aparição foi em Iron Man #31, de 1970.

– Mike O’Brien foi um sargento na polícia de Nova York e também irmão de Kevin. Após descobrir a respeito da morte do irmão ele assume a armadura de Guardsman, mas um defeito nela fez com que um lado do seu cérebro desenvolvesse ciúme, inveja e raiva contra o Homem de Ferro. Tony então descobre o defeito e ajuda Mike, que termina como um aliado. Mike surgiu em Iron Man #82 de 1976.

– Uma palavra chamou minha atenção durante a exibição do episódio. No bar foi possível notar a palavra ‘Profanity’. Bom, traduzindo para o português significa profanidade. Mas você sabia que proferir palavras profanas é proibido dentro da Marvel? Foi a partir desta proibição que os autores começaram a usar símbolos como %&$#?@! para expressar palavrões, conhecido como “profanitype”. A única exceção foi para o selo adulto MAX. Um dos casos mais interessantes foi Alias, criada por Brian Michael Bendis, e que nós conhecemos como Jessica Jones. Como fez parte do selo MAX, a personagem pôde usar palavrões livremente. Entretanto ao mudar para ‘The Pulse’, parte do selo regular da Casa das Ideias, Bendis precisou adaptar a própria personagem para diálogos menos “baixos”.

– Daisy chama James de Ted Kaczynski. Esta é uma menção a Theodore Kaczynski, conhecido como Unabomber. Kaczynski foi preso sob a acusação de terrorismo após utilizar bombas para matar e ferir pessoas.

– Simmons e Fitz desenvolvendo as regras para o relacionamento dos dois. Tem coisa mais linda?

– Lincoln lentamente está me conquistando. E isso pode significar sua morte eminente. É a ironia da vida.

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